Baixa dos Sapateiros: história sem final feliz

Posted on 29/11/2007 por

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por Lucas Rocha

O que um dia foi considerado o centro comercial da cidade de Salvador, com um grande tráfego de ônibus e pessoas, e onde também circulava muito dinheiro, acabou transformando-se em um local quase abandonado. Aquelas ruas por onde corriam carros em mão dupla e com um trânsito intenso acabaram se reduzindo a uma avenida de mão única, onde agora passam menos veículos do que nos anos anteriores. A Baixa dos Sapateiros foi uma região de extrema importância histórica e econômica para Salvador, mas, hoje, os comerciantes que lá estão afirmam que o comércio da região não é mais o mesmo.

Tendo como ponto forte o comércio, a Baixa dos Sapateiros abriga muitas lojas e tendas de sapateiros. A atividade comercial chegou até lá por causa da expansão do comércio da Cidade Baixa. Lá, foi inaugurado o primeiro cinema da história da Bahia, porém não mais permanece em primeiro lugar quando o assunto é o comércio. Segundo informações divulgadas no site do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), a diminuição do trânsito no local aconteceu por causa da construção da Estação da Lapa, na década de 80. Com essa mudança, os meios de transporte coletivos que circulavam pelo centro comercial da cidade, mudaram para a nova estação, deixando o antigo Terminal de ônibus da Barroquinha esquecida.

A dona de casa Cleonice Medeiros, 59 anos, freqüenta a Baixa dos Sapateiros há 32 anos e afirma que o movimento caiu muito nas duas últimas décadas. “Antigamente isso aqui parecia um formigueiro, era gente indo, era gente vindo. Aqui tinha um trânsito muito grande de dinheiro, aquilo que era tempo bom para o povo daqui”. Cleonice, que tem uma paixão pelo bairro, onde o marido trabalhou em uma tenda de sapateiro, sente muita falta da época em que a região era muito movimentada.

Uma pesquisa realizada pelo SEBRAE com 100 pessoas no ano de 2005, revela que a maioria dos freqüentadores do bairro são moradores e trabalhadores, sendo uma pequena parcela de turistas e residentes de outros bairros de Salvador. Mulheres acima de 46 anos são as que mais freqüentam o local por causa dos serviços oferecidos. Dos entrevistados, apenas 22 possuíam veículos. O principal motivo pelo qual as pessoas freqüentam a região é o fato de estar localizado próximo às suas casas. Luciano Oliveira, 26 anos, vendedor da loja Casa da Cortina diz que a clientela da loja em que trabalha geralmente é do tipo C, D e E, nunca do tipo A ou B. Ele atribui isso a falta de segurança pública, afirmando que antigamente não havia muita opção para os soteropolitanos, mas agora, com a construção de vários shoppings, as pessoas começaram a freqüentar outras regiões. “Hoje, todo o bairro possui seu próprio mini-shopping”, comenta Luciano.

Dentre os principais fatores que contribuíram para o declínio do comércio na Baixa dos Sapateiros, alguns estudiosos destacam três: a criação da Estação da Lapa, que acabou diminuindo drasticamente o tráfego que acontecia na região; o fato de os estacionamentos passarem a ser pagos, afastando muitos clientes que antes estacionavam com mais comodidade e sem que houvesse tarifas; e alguns apontam a desunião dos próprios comerciantes.

Há alguns anos, o bairro era considerado muito perigoso pelos moradores de outros bairros, principalmente para turistas. Porém, segundo o dono e gerente da loja Casa do Sapateiro, Gerson Luís Souza, 46 anos, o problema da segurança pública na região da Baixa dos Sapateiros já está mais estabilizado: “Hoje em dia o problema da segurança pública já está estável, antigamente isso aqui era muito pior”. Gerson trabalha na região há 31 anos, e desde que começou trabalha com cinco empregados. Apesar das dificuldades enfrentadas, Gerson garantiu que ainda consegue manter os cinco. Ele atribui a culpa do abandono da região à própria modernização, pois este conjunto de fatores infelizmente culminaram na piora da região.

A falta de estacionamento gratuito também foi um dos fatores que contribuíram no afastamento das pessoas do bairro. O vendedor Oliveira se queixa bastante da falta de segurança pública e da ausência de estacionamento gratuito para os fregueses. Ele trabalha na região há oito anos e mora há cinco e diz que nesse meio tempo já percebeu a decadência do comércio. “Não vou dizer que a vendagem do ano de 2006 para o de 2007 teve grande mudança, mas a gente sente uma diferença. E, como todos sabemos, aos poucos a decadência vai se mostrando, todo ano diminui um pouquinho, e esse pouquinho acaba preocupando”.

Um pouco de história
A Baixa dos Sapateiros era chamada de Rua da Vala, e compreende as regiões do Largo do Aquidabã e da Barroquinha. Antes disso, a região conhecida como Baixa do Sapateiro ia da baixa da Ladeira do Taboão (ladeira que liga o comércio à Baixa dos Sapateiros, onde trabalham alguns sapateiros e costureiras) à Rua da Vala. De acordo com o livro “Histórias de Salvador nos nomes das suas ruas”, de Luiz Eduardo Dorea, a Baixa dos Sapateiros tem como nome oficial Rua J. J. Seabra, uma homenagem feita ao governador do estado.

“A Baixa dos Sapateiros ganhou seu nome pela topografia de sua localização e pelo agrupamento profissional que nela começava a se instalar durante o século XIX”, divulga o site do SEBRAE. Nessa região havia diversas casas de couro, que eram muito freqüentadas por sapateiros. Esses mesmo sapateiros, ali iam comprar produtos para fazer a confecção e o conserto dos calçados. Havia também muita “tenda” de sapateiros, por causa desses fatores que veio o nome Baixa dos Sapateiros, que começou a decair, com relação ao comércio e à segurança pública, a partir das décadas de 80 e 90.

Foi na Baixa dos Sapateiros onde foi inaugurado o primeiro cinema de Salvador, em 1910, o Cine-Teatro Jandaia, conhecido também como “Palácio das Maravilhas”. Cinco anos depois, a Baixa dos Sapateiros ganhou outro cinema: O Olympia. “Nos anos 20 e 30, as classes média e alta desfilavam na Baixa dos Sapateiros, freqüentando as famosas matinês do Cinema Olympia ou as esporádicas apresentações teatrais no Cine-Teatro Jandaia, um dos prédios mais elegantes do Centro Histórico”, divulga o site do SEBRAE.

(setembro de 2007)

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