O descaso com o Centro Histórico

Posted on 21/11/2007 por

1


por Pâmela Nunes

A história de um dos mais importantes centros históricos da Bahia é feita de momentos de glória e também de degradação social, que foi acentuada na década de 60 quando o Pelourinho começou a sofrer o caos econômico. Hoje, restaurado e tendo sua devida importância este patrimônio histórico sofre novamente de um problema chamado descaso.
No dia 19 de setembro de 2003, moradores da chamada “Rocinha do Pelô”, (próximo a ladeira do Carmo), sofriam com a ameaça de despejo feita pela família Romano, que são os proprietários de toda área onde hoje se encontra a Rocinha.

“Queriam arrancar os moradores e desmatar a Rocinha para fazer um estacionamento, uma selva de concreto na maior área verde do centro histórico”, afirmou Jorge Souza de 38 anos, um dos integrantes da Conexão Bem Aventurados Carruagem de Fogo. A força dessa organização que reuniu pessoas e impediu que, naquele dia, a policia desabrigasse tanta gente.

Dessa data em diante o Centro Histórico de Salvador vem sofrendo com o crescente descaso do governo e das demais entidades. Os moradores pedem que pensem mais neles, “o Pelourinho não é só palco para turista não”, reivindicou Jussara Santana, moradora antiga da Rocinha revoltada com o abandono.

Reformado e revitalizado por uma intervenção que começou em 1993, o Pelourinho é um dos casos mais notórios de conflito entre população pobre e poder público. Um dos seus maiores críticos é o filósofo francês Henry-Pierre Jeudy, autor do livro Espelho das cidades “O centro, que era uma área viva, se transformou num museu, um pólo para turistas. Esse princípio da conservação, de fazer do centro um museu, é uma síndrome de morte da cidade. Ele petrifica a cidade. As pessoas que moravam no Pelourinho foram expulsas, isso quer dizer que o aspecto vivo da cidade desaparece com a patrimonialização. Havia uma mistura da população, a região era partilhada por todos”, declarou ele em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. Para ele, o ideal seria a restauração das edificações mantendo os moradores lá.

Joceval Rodrigues em depoimento a SEDES (Secretaria de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza), parceira da comunidade, afirmou que o Pelourinho é uma ferida aberta há anos. No centro antigo de Salvador que vai de São Bento ao Santo Antonio além do Carmo, vivem mais de 13 mil (dado retirado do site do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) pessoas que teriam sido esquecidas até então. Com as reformas do centro Histórico a Companhia De Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (CONDER), removeu cerca de 2 mil pessoas de suas casas, com a justificativa da restauração que foram parar nas periferias de Salvador sendo obrigadas a adapta-se ao local.

São 5 anos desde o incidente da “rocinha” e ao todo são 16 anos de luta de um povo que não cedeu às pressões do governo na época para sair do Pelourinho. Mais de 80% dos moradores são descendentes de escravos africanos e deles foram tomados direitos constitucionais, que segundo eles só conseguirão reconquistar através da união. A proposta da comunidade é a inclusão de todos, pois não se pode pensar o Pelourinho isoladamente de toda a área do centro da cidade. A esperança é que a união realmente faça a força neste caso antigo.

(outubro 2007)

Anúncios
Posted in: CIDADE