Os mitos subterrâneos

Posted on 21/11/2007 por

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As histórias dos túneis subterrâneos que fazem parte da história cultural da cidade de Salvador.

por Ícaro Almeida

Em um lugar com tanta história não poderia faltar aquela mais polêmica e com ares sensacionalistas. Apenas quem viveu na época em que a coroa portuguesa fugiu para o Brasil poderia contar, ou talvez nem essas pessoas pudessem esclarecer as verdadeiras histórias passadas nos túneis subterrâneos da cidade de Salvador.

Sob o solo do Museu de Arte Sacra da Bahia está uma parte dos túneis misteriosos da cidade. Localizado no final da Rua Santa Tereza, no Centro Histórico de Salvador, à beira da Baia de Todos os Santos, um dos pontos mais lindos da cidade, os subterrâneos do museu despertaram a curiosidade de muita gente e muita história foi inventada, conta a museóloga e coordenadora de documentos do museu, Mirna Brito. Nesses túneis, estariam escondidos os “doze apóstolos de ouro”, estátuas dos apóstolos de cristo, esculpidas em ouro, que custariam fortunas, cada uma. Sem contar também, segundo ela, a possível existência de tesouros escondidos nos subterrâneos, trazidos pela coroa portuguesa ao Brasil, na época da colonização.

Existe também a crença de que esses túneis eram usados como forma de evacuação da cidade, como conseqüência de ataques piratas à Salvador ou também ataques de estrangeiros inimigos da coroa portuguesa, relata o professor de teoria de história da arquitetura brasileira, da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Eugênio Lins. Segundo Lins, um túnel existente na Igreja da Misericórdia, e outro na ladeira da Gamboa, que sai na casa que atualmente pertence à cantora e intérprete baiana Maria Betânia. Segundo o professor, no Mercado Modelo, que no ano de 1983 foi atingido por um incêndio, foram descobertos os túneis subterrâneos onde estavam expostas fundações de pedra sob o solo rochoso marinho. Hoje estes túneis estão abertos à visitação pública.

O subsolo do Mercado Modelo possui uma estrutura na qual os túneis são sustentados por arcadas. Esses túneis foram construídos para ser um local de armazenamento de vinhos e outras mercadorias que necessitavam de umidade. Mas segundo a lenda popular era no subsolo que ficavam os escravos recém chegados. O lugar fica abaixo do nível do mar e permanece constantemente alagado. Ainda segundo Lins, as pessoas que rondam o mercado a noite relatam que ouvem ruídos de correntes dos escravos que, segundo a lenda, teriam habitado o subsolo.

O Museu de Arte Sacra de Salvador também possui túneis subterrâneos, mas estes, como relata o arquiteto e diretor do Museu, Francisco Portugal, não guarda nenhum dos “doze apóstolos de ouro”, nem guarda nenhuma moeda da coroa de Portugal, muito menos como as pessoas que moram no Centro costumam brincar, era local secreto dos monges (do antigo mosteiro, no atual museu) para se encontrarem com as freiras.

Segundo ele, os túneis subterrâneos do Museu de Arte Sacra são apenas aquedutos. Ele relata que, na época em que os “monges carmelitas descalços” habitavam o local, onde hoje se encontra o museu, havia uma fonte próxima ao jardim. A água nascia no Largo Dois de julho. Para essa água chegar ao antigo mosteiro foram construídos aquedutos que ligaram a nascente até a fonte do antigo mosteiro. Ainda, segundo Portugal, os túneis do museu foram reduzidos devido às construções atuais. Na época de sua construção o túnel media duzentos metros de extensão e hoje possui apenas sessenta metros.

Os túneis possuíam uma arquitetura formada por suspiros e uma galeria onde não é possível transitar, pois o ar é rarefeito. Para uma pessoa de estatura média se locomover, em alguns trechos desses túneis necessitaria se abaixar e engatinhar, conta o arquiteto. Outras partes continuam até hoje abastecendo o museu. Só que a água não desemboca mais na fonte do jardim e sim em um reservatório, construído pelo museu no ano de 1958. Estudos feitos a pedido da direção do museu, na Escola de Farmácia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) revelam que a água volumosa que sai dos túneis é potável, mas não é utilizada para consumo humano e sim para a limpeza do museu e para regar as plantas.

Salvador, uma das cidades que “abriram” os caminhos do país para o descobrimento, passa uma parte da sua cultura através das suas histórias míticas e que ao mesmo tempo acabam por se entrelaçar com a realidade dos fatos documentados. No fundo, os túneis subterrâneos nos “dizem” que “a verdade é que não sabemos da verdade”.

(outubro 2007)

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