Falta de sensibilidade deprecia artesanato na Bahia

Posted on 21/11/2007 por

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por Marcele Neves

É inevitável viajar para Bahia e não levar na bagagem uma lembrança. Além de marca registrada na cultura não só da Bahia, mas de qualquer outro estado, o artesanato é a história materializada, além de objeto de decoração e meio de sustento de muitas famílias. Em Salvador, especialmente no centro histórico é possível encontrar uma infinidade dessas lembranças. Cores, texturas e muita criatividade se misturam e transformam-se em verdadeiras obras de arte.

Diversas lojas, exibem a cara de Bahia em peças que vão desde cangas de estampas de fitinhas do Bomfim, até quadros maravilhosos feitos na hora diante dos turistas. Mas, o artesanato  e suas  peculiaridades estão sendo prejudicados pela alta “invasão” de  produtos industrializados que chegam à Bahia para serem comercializados como locais e também pela falta de sensibilidade dos consumidores em saber distinguir uma pequena peça de artesanato de uma verdadeira obra de arte. Muitas vezes, andando pelas ruas do Centro Histórico, pode-se observar artistas desenvolvendo seu trabalho na frente de seus consumidores. Além de ser mais credível, o próprio trabalho de desenvolvimento da peça, já encanta por si só.

O pintor Gil Abelha é prejudicado por esse fator. Ele desenvolve um belíssimo trabalho de pintura em telas e em pedras semi-preciosas que é um espetáculo a parte. Com 32 anos dedicados a arte, o artista afirma “sobreviver de outro países”, já que seu trabalho não é valorizado pelos conterrâneos. “ Retrato a cultura afro brasileira em meu trabalho, e a Bahia,mas precisamente Salvador que é, depois da África, um dos lugares com a maior população negra do mundo, não reconhece minha dedicação. Quem me prestigia são os turistas. Exporto pra toda América Central e Europa”, diz o pintor.

Essa prática vem se tornando cada vez mais comum, segundo Verônica Lemos, a coordenadora da Culturart, uma cooperativa que emprega aproximadamente 60 famílias e são responsáveis por 60% do artesanato comercializado no Pelourinho. Esse um dos principais motivos pelos quais o artesanato não é mais desenvolvido e valorizado. Apesar de ter uma importância crucial no desenvolvimento do lugar, esse avanço e otimização do tempo de produção das peças acabam por quebrar o encanto no “espírito” do artesanato.

“Como podemos competir com as máquinas? Se enquanto levamos dias pra produzir certos tipos de artesanato, a industria produz cem por dia? Sem falar que as peças feitas à mão tem todo um cuidado, e a partir do momento que se tem uma produção mais rápida as pessoas não querem pagar o verdadeiro valor da peça”, afirma ela.

Outro fator importante é a falta investimento do governo do estado para as cooperativas que lutam para conseguir espaço e autorização para abrir uma feira de artesanato fixa. “ Muitos já foram os projetos desenvolvidos, mas até agora nenhum deles saiu do papel. Temos bastante oportunidade de mostrar nosso trabalho em feiras que acontecem em Salvador esporadicamente e são produzidas por agências de eventos. Mas existe um lado do artesanato que os próprios conterrâneos desconhecem, é a essência que queremos mostrar através de nossas peças”, diz Verônica.

(outubro 2007)

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