Gritos do Pelô

Posted on 21/11/2007 por

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Com a fundação da cidade de Salvador, o Pelourinho consegue deixar sua marca histórica lendária na constituição da Bahia.

por Taiana Laiz

“Vô lembrá dos velho tempo. Dos tempo da escravidão, que o negro não sabia lê, e só sofria judiação, o negro nego não sabia lê e só sofria judiação, e trabaiava sol a sol, inda apanhava do patrão”. É passeando nas linhas da cantiga “Carreira” de Teotônio e Bomba, que vamos resgatar o tempo esquecido, ou até mesmo desconhecido, quando as súplicas de misericórdia dos escravos castigados ainda marcavam a formação de uma cidade, caracterizando um dos mais belos patrimônios culturais do País: Centro Histórico de Salvador, o Pelourinho.

Baía de Todos os Santos, 1549, Tomé de Souza chega, com ordens expressas do rei de Portugal, para fundar uma cidade fortaleza que homenagearia Jesus Cristo, o Salvador. Devido a uma excelente posição geográfica, com ruas tortuosas e ladeiras difíceis de serem vencidas pelos invasores, a construção da cidade teve como ponto estratégico o Pelourinho ou conjunto Pelourinho. Com diversos casarões e sobrados, construídos por mão de obra escrava e indígena, inspirados na arquitetura barroca portuguesa, o Pelourinho abrigou, desde então, belas construções coloniais e uma história lendária que viria a dar mais tarde origem ao seu nome atual.

Pelourinho e “pelourinho”
Oficialmente conhecida como a praça que leva o nome do poeta José de Alencar, o Largo do Pelourinho, ou “Pelô”, como é apelidado por seus moradores e visitantes é reconhecido pela História da Bahia pelas torturas infringidas aos africanos escravizados. Considerado símbolo de autoridade e justiça, os “pelourinhos”, colunas feitas de pedra ou madeira, com buracos para a cabeça e mãos, eram geralmente construídos com a fundação das cidades, porém afastados do centro, erguidos somente nos engenhos, servindo de exemplo aos outros escravos. “Antes o pelourinho era utilizado pela autoridade como forma de punição aos ofensores da lei, ou seja, aos criminosos. Porém, com o advento da escravidão, o pelourinho foi implantado com o objetivo de tão somente demonstrar toda força dos senhores de engenho”, afirma o pesquisador e historiador Manoel Neto, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Com poucas palavras Neto expõe sua tristeza mediante a lembrança do passado.

Todos os escravos que desobedeciam às imposições de seus senhores eram expostos ao escárnio da sociedade, sendo castigados em praça pública para que todos os olhos passantes pudessem assistir a demonstração de poder do senhor. “Desconhecia a história de horror deste local. É muito triste”, declara assustada e com uma interrogação no ar sobre a veracidade da história, a carioca Fabiana Gonçalves, de 22 anos, estudante de administração.

Calçada com as chamadas “pedras-moleque”, esculpida pelo tráfego secular do trabalho árduo de sol-a-sol dos escravos, o “pelourinho”, lugar escolhido para chicoteamento na cidade, não foi selecionado por um mero acaso. Como relata o livro Pelourinho: desenvolvimento socioeconômico, de Maria Aparecida dos Santos e Luciete Barreto, o primeiro “pelourinho” erguido em Salvador foi na Praça da Feira, área em frente à atual Câmara de Vereadores e ao antigo Palácio do Governo. Logo após, foi transferido para o Terreiro de Jesus, não ficando por muito tempo graças aos apelos da sociedade. Logo, foi mandado para a atual Praça Castro Alves e, por fim, até ser extinto, ficou localizado no Largo hoje conhecido como Pelourinho, um dos mais encantadores cartões postais da cidade.

Cenário de horror e suplício, caracterizado pelos gritos dos açoitados que se ouviam nos atos religiosos realizados próximo ao local, ir para o Largo do Pelourinho representava dominação determinada pela coação concretizada pelos castigos físicos e punições em público. “Não sei se é verdade que o pelourinho era realmente centro de tortura aos escravos, isso é o que a nossa história conta e nem sempre somos aptos a acreditar”, afirma com convicção, mas não levando a frente o assunto, a baiana Carla de Jesus, de 19 anos, estudante, que estava visitando o local e aproveitando o ensejo para tirar, sorridente, fotos no Pelourinho.

História conhecida?
Não foi devido ao verdadeiro significado histórico que o Pelourinho se popularizou tanto na Bahia como no exterior, virando ponto de referência da cidade e, principalmente, destino turístico nacional e internacional. Muitos turistas que passam pelo local desconhecem ou até duvidam do significado carregado de sofrimento.

Para comerciantes e moradores da região, o Largo do Pelourinho é conhecido não pela história de tortura dos escravos, mas somente pela beleza das casas instauradas ali. “Os turistas, muitas vezes, dão valor, mas somente para a beleza arquitetônica do Centro Histórico, não pela história dos nossos antepassados”, afirma, insatisfeito, José Cabral, nome artístico que leva assinado nas pinturas que vende pelas ruas do Pelourinho. Brincando, não quis declarar a idade, “sou velho igual a meus antepassados”.

Já quem conhece a história secular do “Pelô”, a praça não representa apenas um destino turístico, e sim, um lugar de culto às almas perdidas, como sacrifício da escravidão. Um espaço sagrado para ser cultuado por todos. “Um local de sacrifício humano como o Pelourinho, onde escravos foram açoitados e apunhalados até o último suspiro, era para ser apenas local santo, de culto e oferendas”, diz Muzenza, como é conhecido, adepto do terreiro Ogum Aê, localizado no Subúrbio Ferroviário de Salvador.

Independente do conhecimento que chega aos poucos soteropolitanos, baianos, brasileiros e estrangeiros sobre o Largo do Pelourinho, o que importa de fato não é seu reconhecimento, e sim, sua marca histórica deixada na cidade que pode ser vista através das pedras irregulares do chão que pisamos, que ainda tão pouco conhecemos.

(outubro 2007)

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