Desenhista galanteador

Posted on 31/08/2007 por

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por Mariana Nascimento

Desenhista por vocação, Jailton Moisés da Silva Brito, 22 anos, trabalha todos os dias na Praça da Sé traçando o rosto de muitas pessoas que por ali transitam. Bastante observador, Jailton olha todos que passam ao seu lado, abordando-os com uma conversa que considera bastante amigável e descontraída. O grande sonho que tem é um dia ser reconhecido e famoso pelo seu trabalho.

No dia-a-dia, o local de trabalho de Jailton tem um movimento intenso. Entretanto, ele conta que nem todos aceitam ser desenhados. A maior receptividade vem por parte dos turistas, principalmente os residentes no Brasil e que vêm a Salvador a passeio. A clientela é, em sua maioria, formada por mulher, pois são poucos os homens que aceitam o desenho. Com os turistas internacionais, ele diz ter maior dificuldade, pois não sabe falar língua estrangeira. O inglês e o espanhol ele ainda entende um pouco, mesmo assim, acha muito difícil.

Uma das grandes manias do desenhista Jailton é “abusar” as mulheres, principalmente as tímidas. O seu truque para que uma mulher aceite que ele desenhe o seu rosto é elogiá-la, mas faz de uma maneira respeitosa, como ele mesmo diz. Ele fala que muitas ficam com vergonha e é exatamente dessas que ele mais gosta, pois, com o seu jeito desinibido de ser, faz brincadeiras, deixando-as ainda mais sem graça.

Jailton Brito disse que nunca fez curso de desenho. Para ele, isso é um dom que possui, pois desde os quatro anos de idade gosta de desenhar. Explica um pouco melhor como descobriu que tinha esse dom, quando diz que “ficava em casa olhando os quadros, observando todas as coisas, sempre tendo a curiosidade de criança de alguma coisa a fazer”. Na escola, sempre que tinha um lápis ao seu alcance, ele passava o tempo todo desenhando. A professora reclamava um pouco disso, mas, mesmo que os desenhos fossem feitos em horário de prova, ela acabava dando nota boa para ele, pois era uma forma que tinha de ocupar a mente com uma coisa interessante, como conta Jailton.

Freqüentando a Praça da Sé há cinco anos, onde chega às 9h da manhã e só sai às 6h da tarde, Jailton diz que o seu trabalho é muito prazeroso, apesar de muitas vezes “o dinheiro ser pouco, pois nem todos valorizam a arte”, comenta. Para ele, a melhor época é no período do verão, pois tem muito turista e recebe, às vezes, até quatro vezes mais do valor recebido em um período de baixa estação, período de fraco movimento.

À noite, Jailton dedica o seu tempo aos estudos. Cursando o terceiro ano do segundo grau no Colégio Central, ele quer fazer faculdade para se tornar desenhista profissional, seguindo a carreira que sempre gostou. Como plano para o seu futuro, ele fala que quer ter o mesmo reconhecimento que o jogador de futebol Ronaldinho, tendo muita fama e dinheiro.

Vida em família
Nascido e criado na cidade do Salvador e residente há muitos anos no bairro de São Caetano, Jailton vive em uma casa com seus sete irmãos e a sua mãe. Com uma família bastante unida, ele diz que isso se deve a boa criação que todos receberam da mãe. A união entre eles, segundo Jailton, é fundamental para a convivência em harmonia. Brigas são muito raras de acontecer, pois ele diz que ama a sua família e deve respeitar a todos, independente de como seja e da profissão que exerça. Inclusive, todos têm uma grande receptividade quanto ao seu trabalho. Utilizando o dinheiro que recebe para uso pessoal, ele diz não haver necessidade de ajudar em casa, pois todos na família têm um bom emprego.

Abordagem
O que Jailton talvez precise melhorar é a sua forma de abordagem, pois algumas das suas clientes chegam até a ficar assustadas. A estudante Viviane Abreu de Oliveira, 16 anos, que foi ao Pelourinho a passeio, foi abordada por Jailton. Após uma conversa “estranha”, segundo Viviane, ele pediu para desenhar o seu rosto. Perguntou se ela era amiga de um amigo dele. Como a sua resposta foi negativa, ele disse que era porque ela é tão bonita e por isso parecia com essa menina que ele conhecia. Dizendo estar com pressa, Viviane falou que precisava ir embora. Insistente, Jailton a acompanhou até o ponto de ônibus, entrou no mesmo transporte que ela e sentou-se ao seu lado. O tempo inteiro ele foi mostrando o seu trabalho e falando que já estava neste meio há muito tempo. Sem saída, ela elogiava o seu trabalho. Entretanto, confessou ter tido muito medo “daquele homem” e assim que pôde saiu de perto dele.

A estudante de Jornalismo Maíra Portela, 19 anos, também foi abordada pelo desenhista Jailton quando foi ao Centro Histórico fazer um trabalho. Maíra disse que ele chegou pedindo para fazer um desenho seu. Após elogiar, como sempre faz, ele disse que faria o desenho em apenas dois minutos e que custaria somente R$ 1,00. Ela aceitou, “mas foi só para ajudá-lo, pois não tinha interesse. Inclusive o desenho que ele fez não ficou muito parecido”, comenta ela. Durante todo o tempo que estava desenhando, Maíra disse que Jailton ficou falando várias coisas sobre candomblé e depois dizia que ela era muito bonita. Isso fez com que ela tivesse um pouco de medo, mas logo depois percebeu que ele só queria fazer o seu desenho, o que a deixou mais tranqüila.
(junho de 2004)

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Posted in: CULTURA