Beleza pura!

Posted on 31/08/2007 por

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Pintores sobrevivem pelas ruas do Pelourinho

por Daiane Sales

Isolados na esquina, criando ao ar livre. Escondidos e esquecidos nos becos do Centro Histórico de Salvador, andam de um lado a outro, a procura de um olhar sincero sobre a arte. São pessoas simples, que vivem da alegria de pintar, não importa como. Artistas esquecidos, classificados como primitivos diante dos experientes. Assim se mantêm aqueles que escolheram a arte como meio de vida.

Dos dedos sujos de tintas, a certeza de que dali surgirão diferentes paisagens. Como num passe de mágicas, a natureza nasce encantadora. Quem acompanha a produção feita na hora por Obá, a princípio se perde diante de tantos “borrões”. Com o passar dos dedos sobre a base branca do azulejo, a combinação das tintas vai recriando a realidade.

As unhas dão detalhes e efeitos à pintura, enriquecendo ainda mais a obra. A cada pedido do freguês, uma surpresa: os quadros sempre saem melhores do que o esperado. Já alguns passam e apenas olham, deixando para trás um pedaço de alegria e tranqüilidade. O paulistano Obá revela a beleza da Bahia, misturando o que Salvador e a sua natureza têm de melhor. “A Bahia é uma obra de arte”, diz.

O artista começou a pintar aos 7 anos de idade e nunca mais parou. Vendendo suas criações por R$3 e R$5 ele vai tirando seu sustento. Por dia, o pintor consegue obter uma faixa de R$100 a R$170. “Eu pinto a média de 50 telas por dia”, relata Obá. Sua jornada começa às 6h da manhã e só termina ao pôr do sol. De domingo a domingo, o artista de rua já pinta há quase 40 anos. “Eu vivo da arte e vou morrer pintando”, comenta.

Com o lema “Pintando com os dedos para o mundo”, ele vai mostrando para os turistas a sua criatividade. Os estrangeiros gostam tanto do trabalho que pedem para encomendar. “O meu relacionamento com eles é ótimo, inclusive eu tenho divulgado muito a Bahia pro exterior. Todos os recantos do mundo, graças a Deus, eu tenho um trabalhozinho já lá”, explica o artista, acrescentando os obstáculos: “A minha dificuldade é o inglês”.

Outra dificuldade que Obá enfrenta ao pintar na rua é a chuva: “A chuva é inimiga do pintor. Cada pinguinho de chuva que bate na tela a gente tem que desmanchar, nunca fica como a gente começou a fazer o quadro”. Mas, ainda com tantas barreiras, ele considera gratificante o trabalho na rua: “Você conhece todo mundo, faz muitas amizades. Eu mesmo não gostaria de trabalhar num ambiente fechado”, afirma.

A voz do povo

O servidor público da Secretaria da Fazenda Luis Cláudio, 42 anos, comprou duas pinturas do artista Obá e relatou: “Infelizmente, o trabalho como artista no Brasil é pouco reconhecido. Artistas como ele deviam ter espaço na mídia pra que pudessem divulgar mais os seus trabalhos, são muito bons. Países do continente europeu dão oportunidades a seus artistas de ter uma sobrevivência melhor do que aqui no Brasil. Enquanto os artistas daqui ficam mendigando espaço para apresentar o seu trabalho, que é de muita beleza”, diz.

Formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), o professor de História Búria Cardoso, de 71 anos, conhece bem o artista e o elogia: “Ele tem um processo bem pessoal. A técnica: usa o dedo. Usa também uns pauzinhos. Outra qualidade dele: eu acho que é um homem de muita imaginação. Obá imagina, cria. E essa criatividade é positiva na profissão dele. Ele não depende de figurinhas, de cópias. Os seus quadros são perfeitos. Eu sei que o povo não valoriza e não tem poder econômico pra isso. Mas tem gente que vem do exterior e compra. Compra e leva vários. Realmente eu me sinto muito satisfeito pela obra dele”.

Arte Esquecida
A caminho da Praça da Sé, ao lado do Elevador Lacerda, havia um senhor que caminhava atrás de um turista. Ele tentava vender suas telas e divulgar seu trabalho. Era Edmundo Oliveira Santos, o Edvon, de 71 anos. Artista plástico pelo Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), Edvon se especializou em xilografia (arte de gravar em madeira).

Porém, apesar de todo o conhecimento que detém, o artista vive das vendas de suas obras nas ruas do Pelourinho, por conta da carência de exposições para artistas desconhecidos. “As exposições em galerias são muito poucas. Atualmente não se vende trabalhos em exposições. O artista, para vender o seu trabalho, precisa ter bala na agulha, ser direto e bem comunicativo”, comenta.

Edvon vende seus trabalhos a preços baixos e consegue a média de um salário mínimo por mês. “Em Salvador, com esse salário defasado que nossa gente tem, é muito difícil você propor um preço um pouco maior”, revela. E explica que os estrangeiros sabem do valor do salário no Brasil e, por isso, também não pagam preços elevados.

A sua fonte de inspiração é diversificada, seja pintando o povo da rua ou mesmo mostrando a beleza dos monumentos históricos do Pelourinho. A importância do seu trabalho está na força de expressão de figuras populares da Bahia, na capacidade de envolvimento que a arte proporciona através das imagens gravadas nas telas esquecidas.

(novembro de 2006)

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Posted in: CULTURA