Além da leitura

Posted on 31/08/2007 por

2



por Neise Silva Soares

Muitos argumentam que o “brasileiro tem preguiça de ler”, porém o que se vê nos sebos é uma realidade muito diferente. Algumas pessoas preferem comprar livros mais em conta nesse local e outras gastam verdadeiras fortunas em obras raras ou livros antigos pelo prazer de conseguir completar sua coleção. É uma emoção cheia de contrastes, desde aquele que procura uma grande obra literária ao estudante que vai em busca de um simples livro para consulta, em um ambiente silencioso e com um cheiro inconfundível. Como diz o padre Antônio Maria, “o livro é um mundo que fala, um surdo que responde, um cego que guia e um morto que vive”.
Em Salvador existem diversas dessas livrarias que vendem livros usados. Uma delas é a Livraria Brandão, o primeiro sebo de Salvador, localizado na Rua Ruy Barbosa. Criado em 1969, como uma iniciativa de João Bezerra Brandão para obter livros com custo inferior para utilizar na Faculdade de Medicina, esse tipo de livraria existe desde 1956 em Pernambuco e atualmente já está presente em diversas cidades como São Paulo e Recife, conta Brandão. Outro sebo de Salvador é o Graúna, fundado em julho de 1986 pelos sócios e irmãos João e Noemia Sarno. No início era uma banca de livros usados que ficava na entrada do Canela. Hoje, uma loja que fica no shopping Aeroclube Plaza, no bairro da Boca do Rio.

Entre tantos livros há muita história a contar. Existem pessoas que são tão apaixonadas pela leitura que esquecem do tempo. Foi o que aconteceu com um antigo freqüentador que ficou preso num sábado após o fechamento do Brandão por volta das 14h, como afirma João Filho, que administra o negócio iniciado pelo pai. “Ele ficou muito feliz e agradecido porque pôde apreciar a leitura sem ser incomodado e só se deu conta que estava preso no fim da tarde”, quando ligou para João, que na época morava na Caixa D’água, vir soltá-lo. João ainda lembra que “tem clientes tão fanáticos pela leitura que se não passar um sábado na livraria ficam doentes e voltam para pedir desculpas”.

Há pessoas que gostam tanto dos livros que se emocionam com as histórias de vida apresentadas nas obras. Um desses exemplos é o da jovem estudante, aspirante a médica, Elisabete Schindler Lima, 19 anos, que afirma ter os personagens das obras como amigos, pois, segundo ela, “a vida imita a arte e a arte imita a vida e por isso levo a literatura para minha vida diária”. O livro é para essa adolescente também uma forma de se prevenir e aprender novas coisas. Para ela, a história de um livro pode parecer muito real, referindo-se ao livro Fio da Navalha que tinha um personagem com as mesmas características de seu avô, falecido há poucos dias: “Uma das figuras desse livro morreu como meu avô e um amigo coloca uma mensagem na sua cova como fiz com ele. Para minha surpresa, quando entrei no ônibus o cobrador estava lendo o mesmo livro. Foi muito curioso”.

Curiosidade
Os livros pequenos são procurados por vários estudantes que vão em busca deles para gincanas escolares. Entre as obras, algumas chamam a atenção pelo título curioso, como o “Guia básico para a mulher competente ser fútil, burra e mais feliz”, que foi lançado em 2001 pela escritora Tânia Motta, e “Penso, logo me engano”, de Jean Pierre Lenitin. Quem mais compra os livros no sebo são turistas que procuram esse tipo de livraria para completar coleções. Um destes é o colecionador de revistas Lauro César Freitas, que veio de Santo Amaro (Ba) desembolsar R$120 por quatro revistas em quadrinhos para completar sua coleção de revistas das décadas de 70 e 80. Além das revistas, ele ainda confessa ser “apaixonado por livros de história”.

Os preços dos livros variam de acordo com a sua importância. Existem diversas raridades, como os Lusíadas, de Luís de Camões, que custa R$ 5.5 mil e outros que custam R$ 10. Porém esse não é o livro mais antigo da Brandão. O mais velho é “Lês Amours de Psyche et de Cupidon”, escrito em 1782. Vários estudantes também procuram esse tipo de livraria para adquirir obras literárias. Entre esses, o jovem estudante Márcio Paixão, que estava a procura dessas obras para completar sua lista de livros: “Venho aqui eventualmente, geralmente no início do ano, procurando obras literárias”, declara ele enquanto observa a estante com os livros de Machado de Assis. Além de vender livros, o sebo também compra obras, sempre procurando avaliar se os livros são recentes, as condições e a facilidade de estar se renovando. “Livros que sempre se renovam não é vantagem porque sempre sai uma nova edição mostrando outras teorias”, disse João, enquanto atendia uma cliente que comprava uma obra literária.

Fidelidade
Tem clientes que compram uma vez e voltam sempre para comprar nos sebos pela facilidade de contato com as obras. Foi o que aconteceu com Maria de Fátima Lima Ramos, cliente há 15 anos e que sempre procura o sebo para comprar os livros da filha, além de outros para enriquecer seu conhecimento e acostumá-la desde cedo a gostar dessa prática. Outra cliente fiel aos sebos é a estudante de direito da Faculdade Baiana de Ciências (Fabac) Elienai Costa Silva que admite gostar dos sebos pela boa qualidade dos livros, bom atendimento, economia e a facilidade em ter acesso aos livros, uma de suas paixões. E, por amor à leitura, muitas pessoas esquecem da vida, se emocionam ao encontrar o livro procurado e gastam verdadeiras fortunas pelo simples amor ao livro, não importando nada, somente o prazer da leitura.

(junho de 2005)

Anúncios
Posted in: CULTURA