Sessenta anos de tradição

Posted on 11/04/2007 por

0


por Joana Batista

“Quando admitido numa livraria como menino de mandados há 73 anos atrás, ainda menino, permaneci trabalhando até hoje em livraria, então a tristeza é grande na hora que percebo que já não vai dar mais”, desabafa o simpático senhor de cabeça branca e óculos de grau. Há 61 anos atrás, Habidon Rosado inaugurou, na Praça da Sé, a Livraria Universitária. Hoje, com 88 anos, sofre ao lembrar que todos esses anos de história e tradição estão prestes a ter um triste final.

A trajetória desse senhor começa em 1931, quando, aos 15 anos de idade, entrou em uma livraria pedindo para ser empregado como menino de mandados. Na hora, o guarda-livros, que estava presente, não gostou da idéia, já o dono do estabelecimento relutou um pouco, mas acabou contratando. “Depois, talvez por força do destino, ele disse: você pode ficar desde hoje. E aí eu fiquei e estou já contando 73 anos passados desse episódio”, relembra saudoso Rosado.

Doze anos passados da sua primeira oportunidade de emprego, Habidon abriu a sua própria livraria, em uma casa localizada em frente ao Cine Excelsior, na Praça da Sé, onde permanece até hoje. Trabalhando diariamente das 8h às 18h, durante todos esses 61 anos Habidon viu a transformação do Pelourinho e a da Praça da Sé, assim como muitas outras mudanças que ocorreram nesse tempo. A reforma da praça em frente a sua livraria foi a única reforma feita no Centro Histórico que o livreiro não viu com bons olhos.

A retirada das linhas de ônibus da praça prejudicou não só as vendas da livraria, como também o comércio local em geral. E é justamente por causa dessa retirada dos ônibus que Habidon aos poucos está se vendo obrigado a fechar as portas do seu estabelecimento. O preço do aluguel da casa onde funciona a livraria já não está mais cabendo no orçamento da loja. “Tá caro demais, eu já não estou mais vendendo o suficiente para pagar”, argumenta ele. Apesar disso, o dono da livraria faz questão de frisar que a culpa do fim da loja não está no preço do aluguel: “A culpa não é dele, a saída dos ônibus foi o que prejudicou o comércio varejista”. Preocupado, Habidon fica receoso que alguma de suas declarações prejudique o dono da casa.

Trajetória de aprendizados
Na longa trajetória da vida de Habidon, que recebe pessoalmente os consumidores da loja, o aprendizado é um assunto que enche seus olhos de lágrima. Segundo ele, as pessoas que passaram pela livraria e o que ele aprendeu com essas visitas são as melhores lembranças que ele pode levar de todos esse anos. Entre as pessoas que passaram pelo local, prefeitos e governadores foram os que mais chamaram a atenção do livreiro. “Muita gente já passou por aqui. O tipo de público que eu tenho é o melhor possível. Eu aprendo muito com eles e eles me ensinam muita coisa”, relata Rosado com a voz trêmula.

Rosado diz ainda que se tivesse alguma oportunidade de manter o estabelecimento, lutaria por ela com todas as armas que possui. “Mas infelizmente acho que isso não vai ser possível. É com muita tristeza que tenho que dizer que o fim está próximo”, finaliza.
(junho de 2004)

Anúncios
Posted in: CIDADE