Tradição com mais de 70 anos

Posted on 11/04/2007 por

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por Flávia Pinheiro

 

A Cubana é uma das sorveterias mais tradicionais e a mais antiga de Salvador. Situada na Praça Municipal, no centro da cidade, ao lado das portas de entrada e saída do Elevador Lacerda, e em nova sede no Pelourinho, ela se tornou ponto de encontro de namorados e das famílias soteropolitanas em passeios dominicais. Afinal, quem nunca comeu seu bolinho de arroz e nunca foi tomar o Milk Shake de chocolate mais famoso da cidade? Contudo, com o crescimento da cidade, surgiram novos ambientes para o lazer e, por isso, a tradição de tomar sorvete na Praça Municipal foi um pouco esquecida.

De acordo com Marcos Bouzas, 27 anos, um dos administradores da Cubana, a sorveteria foi fundada em 1930 por Baltazar Moas, quando este foi exilado de Cuba durante a revolução. Moas era ministro em seu país e quando chegou a Salvador trouxe, pela primeira vez, o sorvete para a cidade, seguindo a tradição de seus pais que tinham uma sorveteria em Nova York. Baltazar nunca tinha sido comerciante e, em 1941, vendeu o empreendimento ao avô de Marcos, um imigrante espanhol, e permanece até hoje sob a responsabilidade de sua família.

Durante muito tempo, freqüentar a sorveteria significava status e prestígio perante a sociedade. “Antigamente, nas décadas de 50 e 60, A Cubana era um dos lugares mais chiques e mais bem freqüentados de Salvador”, afirmou a dona de casa Lourdes Veiga de 69 anos. De acordo com Veiga, a cidade naquela época era pequena, não tinha muitas opções de diversão. Assim, todo mundo ia para a Praça Municipal, sentar nas mesinhas da Cubana e observar uma parte da vista da Baía de Todos os Santos. O engenheiro civil de 77 anos, Ângelo Marchesini, que também vivenciou o início dessa tradição, diz que todo mundo ia bem arrumado apreciar o pôr-do-sol mais bonito da cidade. “Era um desfile de moda! A Rua Chile, a Praça Municipal com seu Milk Shake, eram freqüentadas pela elite de Salvador. Todo mundo saía de casa com a melhor roupa para passear”, declara.

A sorveteria chamou a atenção da população não só pela qualidade, mas também pelo glamour como os sorvetes eram servidos. Todos em taças, dos mais variados sabores como a Banana Split, o Sundae, e o famoso Dust Muller, antes jamais vistos e experimentados pela população de Salvador. “O auge da Cubana foi a partir de 1946 até o ano de 1965, quando meu avô assumiu a sorveteria”, declara Bouzas. Hoje em dia, a praça se tornou passagem de pessoas apressadas e ocupadas, que mal têm tempo de parar e observar a beleza do lugar. Além disso, transformou-se em estacionamento para quem vai para a Prefeitura, Palácio Rio Branco e localidades adjacentes.

Marcos fala que apesar da Cubana não ser mais aquela sorveteria popular dos tempos de seu avô, ele, juntamente com sua família tenta recuperar a tradição e obter como público atual os netos daqueles que a freqüentavam. Contudo, a sorveteria continua despertando a atenção de muitos que a conhecem. Diferentes pessoas, de localidades diversas, ouvem a sua história e, curiosas, acabam visitando-a. Assim, a advogada paulista Juliana Sampaio, de 38 anos, veio passar as férias na cidade e ficou maravilhada com o espaço. “O baiano não pode deixar esse costume morrer, é muito bom estar nesse lugar, apreciando essa paisagem. Cheguei há três dias apenas e já vim aqui duas vezes”.
O que parece, é que muitas pessoas também estão tentando recuperar a tradição. Através de histórias, os jovens passam a ter curiosidade em conhecer aquela realidade vivida por seus pais e avós. É grande, por exemplo, o número de famílias que têm freqüentado a sorveteira. “Contudo, é preciso que nós, cidadãos, não deixemos A Cubana desaparecer”, afirma Lourdes.

Essa sorveteria faz parte da história da cidade, da sua cultura. Transformou-se em um espaço peculiar de aglutinação de gente de todas as classes e raças. A chegada e saída das pessoas que circulam pelo elevador e param para aquele lanche rápido tem um toque mágico. As crianças, com sua inocência, que correm para espantar os pombos transformam aquele gesto em um momento único. O calor de uma tarde quente, que só Salvador possui, acompanhado de um Milk Shake feito da mesma maneira que em 1930 tem um sabor especial. O bolinho de arroz, o pôr-do-sol… enfim! Tudo na Cubana remete a uma tradição do passado, do presente, e “com certeza”, segundo Bouzas, do futuro da cidade.
(junho de 2004)

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Posted in: CIDADE