Unidas por um monumento

Publicado em 21/11/2007 por

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Desde o projeto arquitetônico até inauguração, o Elevador Lacerda conseguiu de fato mudar a história da capital da Bahia.

por Jéssica Brandão

Os raios do sol ao nascer, em contato com as paredes amarelas e as vidraças do Elevador Lacerda, acordam toda a enseada ao redor do centro histórico.a As catracas presentes na entrada do Elevador, gradualmente, vão cedendo passagem a comerciantes, trabalhadores, estudantes, funcionários, turistas e moradores da região. Subir ou descer agora é apenas uma conseqüência da utilidade deste meio de transporte.

Situado no centro histórico de Salvador, entre a cidade alta e baixa, o Elevador Lacerda além de ser um dos mais belos cartões postais do Brasil, é também um dos principais meios de transporte da região. É o que afirma o supervisor do elevador, Jorge Oswaldo da paixão, 54 anos: “O elevador é muito importante somente no subir e descer, já pensou se a gente não tivesse esse recurso? O percurso seria ir à avenida contorno e subir à cidade”.

Utilizados por muitos como meio de transporte, o Elevador é muito conhecido por ser ágil e barato. A viagem pelas cabines demora em torno de 30 segundos e o custo da passagem é de apenas R$ 0,05. “Eu o vejo como um meio de passagem de pessoas da cidade alta pra cidade baixa, ele pode ser também um ponto turístico como muitas pessoas olham e como é visto nacionalmente, mas a grande massa de pessoas que o utilizam, é para se locomover. E se for comparar com o Cristo Redentor, que é R$ 5,00, o elevador Lacerda que é R$ 0,05 é muito mais acessível”, afirma o estudante Rodnei Costa, 19 anos.

Projetado entre as rochas da Ladeira da Montanha, o Elevador foi construído com o intuito de facilitar o trafego das pessoas e mercadorias entre as duas cidades. Hoje, no entanto, passados alguns anos após sua inauguração, tornou-se também um dos maiores patrimônios culturais do país, isso porque, apesar de ter acontecido algumas reformas, o Elevador continua com a estrutura física intacta mediante a degradação de boa parte do centro histórico.

Segundo Anna Trinchão, secretária do curso de Comunicação das Faculdades Jorge Amado e a tetraneta de Antônio Lacerda, parte da conservação do Elevador é proveniente também da luta de sua irmã Gláucia Trinchão. Recentemente a prefeitura do município, um dos responsáveis pela conservação do elevador queria modificar as cabines existente em suas torres, substituindo-as por cabines que possuem visão panorâmica. “Esta mudança modificaria toda a estrutura do elevador” afirma Trinchão.

A má preservação e as reformas que são realizadas nestas áreas culturais, às vezes acabam por modificar parte da estrutura histórica da cidade. Com relação ao aspecto visual, parte da estrutura arquitetônica sofre alterações do mundo contemporâneo, transformando assim os nossos sítios históricos. “A história da cidade está sendo destruída, tem um lugar que só tem a fachada, a gente tava falando do perigo daquilo ali e porque não está sendo preservado”, diz a estudante de história, Imália Rios Barreto, 19 anos, que estava apresentando o centro histórico e o Elevador Lacerda a duas primas que são de Feira de Santana.

Século XIX. Época dos grandes empreendimentos baianos

Inaugurado somente em 8 de dezembro de 1873, o Elevador Lacerda, primeiro elevador hidráulico da Bahia, foi construído e arquitetado por Antônio Francisco de Lacerda, é o que afirma o escritor Luis Henrique Tavares em seu livro “História da Bahia”. Conforme a dissertação de mestrado de Gláucia Trinchão “Elevador Lacerda de meio de transporte a cartão postal” e o micro documentário “O grupo Lacerda” de Otacílio Neto, o grupo, pertencente à Família de Antônio Lacerda, foi responsável pela maior parte do desenvolvimento urbano da época. Isto porque o pai, Antônio Frederico de Lacerda, era um dos maiores empresários da Bahia no século XIX. Ainda segundo o documentário, o Elevador Lacerda se chamava inicialmente, Elevador Hidráulico da Conceição e depois Elevador Parafuso, entretanto a modificação do nome surgiu posteriormente, em 21 de julho de 1896 para fazer uma homenagem ao seu construtor Antônio Lacerda, idealizador também da companhia de transportes urbanos.

Desde a sua construção, o Elevador Lacerda já passou por quatro reformas. Segundo o Jornal Correio da Bahia de 07 de dezembro de 2003, a primeira reforma aconteceu em 1906, quando precisou realizar algumas mudanças no setor elétrico. E segunda em 1930, para substituir as duas cabines originais, aumentando a sua capacidade para 27 passageiros ao invés de 23. Conforme o Jornal A Tarde de 27 de março de 2006 a terceira só ocorreu na década de 80, quando sofreu uma revisão em toda estrutura de concreto. E a última em 1997, havendo uma análise de todo maquinário elétrico e eletro-eletrônico.

Os problemas que ocorrem com o Elevador Lacerda são comuns a muitos elevadores. Entretanto o guia de turismo Edivan da Costa, 38 anos, afirma que o descaso com a estrutura desse patrimônio é grande. “A falta de seqüência nas cabines, porque constantemente têm problemas na área técnica, prejudica o fluxo de turista e habitantes da terra de subir e descer, de ir pra cidade alta e vice-versa cidade baixa”, disse Costa.

Mesmo assim Edivan não deixa de reconhecer a importância dessa arquitetura, e faz uma ressalva, “o elevador Lacerda para os turistas é tudo, porque ele é o cartão postal da Bahia, do Brasil e do mundo, é o marketing principal da paisagem entre uma cidade e outra. Salvador é talvez a única cidade do planeta que tem esse diferencial, sendo a cidade do século XVI, XVII e XVIII interligado por um só plano que é o Elevador Lacerda”.

Elevado mesmo sendo desconhecido

A história da Bahia passa despercebida aos olhos daqueles que já se acostumaram com a passagem, é o que tenta explicar a Analista de Recursos Humanos (RH) Hildete Monte Verde, 40 anos, “Eu adoro a minha cidade, sou uma fã de carterinha de Salvador e adoro esta área, o Elevador é uma marca registrada daqui, o pessoal conhece a cidade através deste marco, é um ponto que serve de atrativo para o pessoal de fora e que chama muito o turista. Culturalmente é importante saber como tudo isto foi feito e tal, mas a gente nunca sabe, eu acho que o Soteropolitano se transforma num turista, porque ele não conhece a cidade. A gente curte os locais, mas não conhecemos a nossa história”.

As pessoas que conhecem a construção e a história deste monumento são poucas realmente. A estagiária da Emtursa e estudante de turismo Lívia Barbosa, 25 anos, é uma das raras exceções. “Eu conheço a história do elevador através da faculdade porque tem uma matéria chamada história da Bahia e através da internet”. Segundo Barbosa esse conhecimento a ajuda muito, tanto para crescimento pessoal como para orientar os turistas: “Eles querem saber o que tem abaixo, a gente explica que tem a cidade baixa e o mercado modelo e o valor do elevador”.

Para o estudante do 5º semestre de História das Faculdades Jorge Amado, André Luis de Assis, 23 anos, é muito importante à preservação do Elevador para que possamos ter um referencial histórico na cidade. “Eu acredito que o elevador é importante, por que ele representa um fragmento da nossa história. A história é como uma um barco furado, e o Elevador preenche um desses furos”, disse Assis depois de explicar que o Elevado Lacerda além de ser um meio de transporte importante na época, era também um mecanismo de viabilizar o transporte dos produtos de subsistência que vinham de outros lugares e eram deixados em terra na Cidade Baixa, sendo transportados posteriormente para a Cidade Alta.

História conhecida ou não, este é mais um conhecimento que se perdeu na transição das verdades que são passadas de pai para filho. Apesar disto tudo o Elevador Lacerda ainda se mantém de pé, firmando e relembrando mais um capítulo da grande história da Bahia.

(setembro de 2007)

Referências Bibliográficas
Ibahia. Disponível em http://ibahia.globo.com/sosevenabahia/elevador.asp.
Consultado nos dias 11 e 12 de setembro de 2007.
A Tarde. Jornal do dia 27 de março de 2006, caderno local, p.3.
Correio da Bahia. Jornal do dia 07 de dezembro de 2003.
Tricenter. Jornal do dia 7 de maio de 2002.
TAVARES, Luis Henrique Dias. História da Bahia. 10º edição.Bahia: EDUFBA/UNESP, 2001, p.272.
Youtube.
Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=micddPJHENc&mode=related&search=. Consultado nos dias 10, 11, 12, 13 de setembro de 2007 e 25 de setembro de 2007.
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Disponível em http://www.youtube.com/watch?v=hsXa6jCryHU.
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Seu transporte.
Disponível em http://www.seutransporte.com.br/sistema_transporte/historia_transporte/elevador_lacerda.htm. Consultado em 10 e 11 de setembro de 2007.
Wikipédia. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Elevador_Lacerda.
Consultado nos dias 11 e 12 de setembro de 2007.

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