Onde o Brasil começou

Posted on 31/08/2007 por

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por Yuri Abreu e Mariana Nascimento

Todas as praças têm história e peculiaridades que as fazem especiais para aqueles que sempre as visitam ou, simplesmente, fazem delas seu caminho para o trabalho todos os dias. Com a Praça da Sé, no Centro Histórico de Salvador, não é diferente. Muito pelo contrário, há coisas que lá devem ser visitadas, devido a forte história que está presente no local. O lugar, que já passou por mais de cinco processos de reforma, hoje, ainda é um dos mais freqüentados de Salvador.
Quem chega à praça vindo da Cidade Baixa, passando pelo Elevador Lacerda, encontra uma das vistas mais bonitas da cidade. Caminhando poucos metros, o que se vê são as tradicionais baianas, uma mistura de modernidade e passado nos prédios, muita reforma e um intenso movimento de pessoas que passam pelo local todos os dias. E, na localidade onde há muito tempo se localizava a Igreja da Sé e o Colégio dos Jesuítas, hoje se encontra um sítio arqueológico.

Foi graças a um grande esforço de pesquisadores que hoje o sítio arqueológico pode ser admirado e visitado por baianos e turistas. Segundo o professor de arqueologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e um dos coordenadores das escavações do local, Carlos Etchevarne, isso se deve pela falta de tradição e compreensão deste tipo de pesquisa no nosso estado. “Perdemos até para estados como Pernambuco e Piauí neste quesito”, salientou.

De acordo com o professor da Ufba, as escavações – que tiveram uma duração de dois anos – foram iniciadas quando a prefeitura fazia escavações no local para a construção de um banheiro público. “Via-se que quando eram retirados os esqueletos, estes eram feitos de uma forma inadequada. Daí, foi solicitado a intervenção do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional) para que fossem paralisadas as escavações afim de uma investigação mais minuciosa”, declarou Etchevarne. Ali, segundo ele, durante as escavações, também foram percebidas fundações de um edifício, no caso, onde estava localizada a Igreja da Sé, a primeira do Brasil.

Os trabalhos, que contaram com uma ajuda maciça da Prefeitura de Salvador, só tiveram um empecilho: a falta de compreensão das empreiteiras que se envolviam no projeto. De acordo com Etchevarne, estas empresas estavam pouco dispostas a colaborar, sendo que o trabalho exigia um tempo longo de estudos e exploração. Quanto aos achados, o professor de arqueologia disse que o estado deles variava muito, já que, naquela época, quem fizesse parte da nobreza era enterrado dentro da igreja com todos os cuidados necessários. Quem era enterrado do lado de fora, “estava mais exposto, era enterrado de qualquer jeito, por isso, tivemos que ter um maior cuidado com estes achados”, disse o professor.

Quanto à exibição destes achados ao público, Etchevarne diz que vários contatos já foram feitos com o Museu das Baianas e também com o Palácio do Arcebispo, só que até hoje, todos foram negados. A intenção do professor, era a de fazer uma exposição com painéis e vitrines explicativas mostrando ao público toda uma história que, eles, claro, não puderam presenciar.

Monumentos da Sé

“Aqui é tudo muito bonito, especialmente a fonte e a cruz”, disse Sérgio Farias, 28 anos, que há cinco passa todos os dias pela praça em direção ao seu trabalho e se diz orgulhoso da situação atual da Sé. E, realmente, a fonte e a cruz são dois dos monumentos mais admirados por quem passa pela Sé. A “Cruz Caída”, feita pelo escultor Mario Cravo Júnior em homenagem às comemorações dos 450 anos da cidade do Salvador, foi o marco da nova fase da praça. Quanto à fonte luminosa, inaugurada em 2002, esta deu um toque maior de modernidade a praça. Jatos de água e jogos de luzes controlados por computador além de música são os atrativos deste mais recente monumento à praça, que fica mais evidente a noite.

Mas nem todos vêem a praça histórica da mesma maneira. De acordo com a comerciante Naildes da Silva Santos, 41 anos, a grande maioria dos turistas – cariocas e paulistas, em maior número – só vão exclusivamente na Sé por causa da grande propaganda que é feita em cima dela: “Muitos vêm sabendo que isso aqui é só fachada. Outros são bestas, não sabem. A Bahia é muito grande, tem a Lagoa do Abaeté, Dique do Tororó, São Bartolomeu, Rio Vermelho, tanto lugar bonito que tem aqui pra os gringos verem e eles não são levados nestes lugares. Muitos não sabem, mas eu moro aqui há quase 28 anos. Só no Pelô, eu já morei em três casas, eu faço parte do Centro Histórico e vivo assim, nessa vida de miséria e ainda tendo que correr do ‘rapa’” , desabafou.

Além destes contrastes, a praça possui dois bustos em homenagem a dois importantes personagens da história da cidade. Um deles é o de Tomé de Souza, primeiro governador-geral da capitania da Baía de Todos os Santos, em 1549. O outro é o do bispo Pero Fernandes Sardinha, jesuíta, que foi um dos responsáveis pela construção da primeira Sé do Brasil que seria sede do arcebispado, iniciada em 1552.

Figuras da Sé

Mas não é só de monumentos que vive a praça. Há também aqueles personagens que fazem o local ter um jeito próprio: o menino que vende os chicletes pra sobreviver e os artistas de rua. Na primeira situação, os visitantes que ali estavam para admirar o local, não poderiam ficar pouco mais de cinco minutos parados, que logo se aproximava um garoto com uma caixa de doces querendo vender. “Compra aí, moço, um chiclete pra me ajudar”, dizia.

Artistas existem aos montes, brincando com as crianças, fazendo palhaçadas e mágicas, ou ainda aqueles, como Jailton Moisés da Silva Brito, 22 anos, que trabalha há mais de cinco na Sé pintando quadros para garantir o seu sustento. Segundo o desenhista, sua maior clientela é a de turistas brasileiros, já que ele possui dificuldade pra falar qualquer língua estrangeira. Porém, ele se vangloria quando o assunto é como ele aprendeu a desenhar: “Nunca fiz curso de desenho, aprendi sozinho. Meu trabalho é prazeroso, apesar de muitas vezes o dinheiro ser pouco, já que as pessoas não valorizam a arte”, declarou.

Os turistas e a pouca informação

Os turistas são de todos os cantos, sejam eles franceses ou paulistas, canadenses ou acreanos, todos vêm à Bahia admirar a beleza da Sé. Porém se queixam da pouca informação que lhes é passada sobre a história do local. São lamentos da paulista Maria Paisato, 36, e do acreano Eugênio Pereira, de 32 anos. Ambos são contundentes em afirmar que acham tudo por aqui muito bonito, que adoram a cidade, mas que lá em seus estados a história da Praça da Sé e dos arredores do lugar é muito pouco divulgado, “por isso, não tomamos muito conhecimento do assunto”, declarou a paulista.

(junho de 2004)

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